sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A moça do Google maps



Eu estive num acidente de carro a uns anos atrás. Desde então eu quase não saio de casa; a simples ideia de ver um carro passando por mim me dá pânico.
Um amigo meu me ensinou a usar o google maps, tenho certeza que você já ouviu falar. Te permite usar imagens de satélites para ver vários lugares do mundo.Eu fiquei fascinado com essa ferramenta: eu poderia, literalmente, andar por todas as ruas de todas as cidades do mundo.  Eu poderia passear pelo Japão, China, Alemanha, Inglaterra... Até já fui à atrações turísticas como A muralha da China e o castelo do Drácula.
Minha coisa favorita pra fazer era ir à ruas aleatórias em cidades grandes, e contar quantas pessoas e animais eu conseguia ver... cuidando de suas vidas, andando como se não tivesse problema algum na vida.
Notei uma moça na calçada, em Tóquio. andando tranquilamente. deu um zoom nela. Ela carregava uma bolsa cinza com alças brancas. Calça jeans, camiseta branca, tênis vermelho e blusa preta com toca. O google maps borra o rosto das pessoas para proteger sua identidade, mas assim mesmo, eu tenho a sensação que ela estava sorrindo. Na hora, me deu uma grande vontade de estar lá com ela, andando ao seu lado e conversando qualquer bobagem. Suspirei. Deixei meus braços caírem nos braços da cadeira de roda. Isso nunca aconteceria, eu to preso aqui, preso nessa cadeira.
Fechei o notebook, chega por hoje. Fui pra cama. 

Acordei cedo no outro dia e decidi olhar Paris. Paris era sempre divertido, um lugar lindo. Dei zoom numa rua aleatória e comecei a percorre-la. Era uma rua pequena, cheia de lojinhas variadas. No fim, tinha uma faixa de pedestre com várias pessoas atravessando: um homem carrega, andava, olhando para uma velha senhora que carregava uma bolsa enorme. Uma outra mulher estava numa janela, olhando a rua e uma jovem moça guiava um grupo de crianças na faixa.
Eu girei a câmera algumas vezes e então meus olhos se voltaram para um ponto de ônibus, onde vi algo peculiar: vi duas pessoas. Uma delas era uma jovem que estava com os dois pés no chão, sentada de maneira confortável. Foi então que notei os tênis vermelhos, a calça jeans... camiseta branca... blusa preta com toca. O cabelo castanho dela estava amarrado atrás de sua cabeça. Em seu colo, estava uma bolsa cinza de alça branca.
"Que coisa bizzara" pensei comigo mesmo. Não podia ser a mesma mulher. Esse era outra país, outro continente, como podia ser ela?
Maluquice, essas eram imagens aleatórias. ela podia ser uma viajante, além do que, sem poder ver o rosto, era impossível dizer se era ou não a mesma mulher. Cabelo castanho é a cor mais comum de cabelo do mundo e esse tênis vermelho... eu mesmo tenho um igual, comprei na internet.
Dei zoom out e fui fazer algo pra comer.
Depois do almoço, eu decidi olhar Berlim. Peguei uma rua aleatória, como sempre. Não era uma rua muito legal; algum prédios de tijolo, pareciam fábricas. Alguns terrenos vazios cheios de grama e entulho jogado. Mais à frente vi um menino andando, com um celular na mão. Fiquei decepcionado. Estava pronto para sair daquela rua quando notei algo, com o canto do meu olho... aquele par de tênis vermelho.
Ela estava numa esquina, com a mão apoiada num poste, parecia estar tentando atravessar a rua. Sem chance de ser a mesma moça! Mesmo que ela fosse uma viajante, seria impossível mudar de País assim tão rápido. O fato de acha-la em Paris já foi uma coincidência incrível, mas agora? Isso ja tava ficando ridículo.
Eu tava tendo alucinações ou o google decidiu pregar uma peça nos usuários que usam o maps por muito tempo. Procurei no fórum por coisas bizarras que aparecem no google maps. Procurei por uma moça que aparece em todas as cidades, mas não achei nada parecido.
Eu estava nervoso, mas resolvi voltar aos lugares onde a encontrei a primeira vez. Em paris, ela ainda estava no ponto de ônibus, mas não estava mais sentada, mas sim de pé, procurando algo na bolsa. Em Tóquio, ela estava à alguns passos distante de onde eu a encontrei, brincando com um gatinho da rua.
Fui a um lugar novo, Bruxelas. Peguei uma rua qualquer e comecei a girar por ela. Eu estava no que parecia ser um bloco de apartamentos. Não havia ninguém nas ruas a não ser por uma mulher de blusa azul. Suspirei de alívio, eu devia mesmo estar fican... senti um arrepio. Eu estava olhando para as ruas apenas e demorei pra notar alguém na sacada de uma janela... Era ela. Estava com o rosto para frente como se estivesse olhando para a câmera, como se estivesse olhando pra mim.
Em Sydney, ela estava encostada numa parede no estacionamento de uma farmácia. Em Londres, estava embarcando num dos ônibus vermelhos. Em todo lugar que eu olhava, ela estava lá. Passando por uma calçada de tijolos em Veneza. Em Hong Kong, ela estava entre um banco e um McDonalds, ajustando a alça da sua bolsa. A cada imagem, ela estava mais e mais próxima de olhar diretamente pra mim, com seu rosto borrado.
Eu estava aterrorizado, mas o que eu podia fazer? ligar pra polícia? seria ridículo. Quem é ela? ela tava me seguindo? Eu tava seguindo ela? Minha vontade era levantar da cadeira e sair correndo. Porque a única coisa que me fazia me sentir livre, agora era minha maior prisão? 
Tinha algo que eu precisava fazer... Digitei o nome da minha cidade.
Achei ela, a alguns quilômetros da minha casa, em um parque, sentada num banco e apontando para frente. Para mim. Ela me achou... Eu tive vontade de vomitar.
Rapidamente, digitei o nome da minha rua. Percorri ela toda, rodeando o prédio onde eu morava... e nada. Eu não a vi. Nada dela. Vi umas pessoas, mas não ela. Suspirei e me deixei relaxar na cadeira. Eu estava a salvo aqui. Eu nunca saia de casa mesmo. Nunca mais vou usar o google maps, nunca mais vou ver ela.
Foi então, que eu ouvi uma batida na porta. Tremi. E então eu percebi: o maps mostra apenas as ruas, e não o interior dos prédios...
Usei a câmera da minha porta que estava ligada ao meu computador, algo que fiz pra facilitar minha vida, nessa minha situação.
Olhei para tela e vi uma mulher de calça jeans, camiseta branca, blusa preta com toca. Segurando uma bolsa de alça branca. Ela olhava diretamente para a câmera, seu rosto ainda era um borrão. Eu estava com um grito na garganta, quando ela ergueu a mão e bateu na minha porta.
Gelei.
Eu não ia me mexer. Nem respirar. Nunca mais.
Nunca.








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